Escolhendo entre paracetamol e ibuprofeno para alívio de dor de garganta
A questão de paracetamol ou ibuprofeno para dor de garganta aparece toda semana aqui no fórum. A maioria das pessoas não sabe que os dois medicamentos funcionam de formas fundamentalmente diferentes no organismo, e escolher o errado costuma significar tomar remédio por três dias sem ver resultado. Vou explicar como funciona na prática, com base em situações reais que eu já vi acontecer. O paracetamol age no sistema nervoso central, bloqueando sinais de dor no cérebro. Ele não tem ação anti-inflamatória significativa. O ibuprofeno, por outro lado, é um AINE — inibidor da ciclooxigenase — que reduz tanto a dor quanto a inflamação local no tecido da faringe. Para dor de garganta, onde o problema é frequentemente uma inflamação ativa das amígdalas ou da mucosa faríngea, o ibuprofeno costuma ser mais eficaz porque ataca a raiz do problema. Isso quer dizer que paracetamol pode mascarar a dor sem resolver a inflamação. É como desligar o alarme de fumaça sem apagar o incêndio. A dor some por algumas horas e volta quando o efeito passa, porque o tecido continua irritado. Já o ibuprofeno reduz o inchaço dos tecidos, diminuindo a pressão sobre os terminais nervosos de forma mais duradoura.
A dosagem padrão para adultos é 500mg a 1g de paracetamol a cada 6 horas (máximo 4g/dia), enquanto o ibuprofeno usa 200mg a 400mg a cada 6 a 8 horas (máximo 1.200mg/dia sem prescrição). Se a dor for forte e inflamatória —que dificulta engolir saliva —, o ibuprofeno geralmente faz efeito em 30 minutos e dura entre 6 e 8 horas. O paracetamol leva o mesmo tempo para começar, mas a duração do alívio costuma ser de apenas 4 a 6 horas em casos de inflamação pharyngeal. Eu já vi gente tomando paracetamol de 6 em 6 horas sem melhora, porque a dor era causada por faringite bacteriana com edema significativo. Trocou para ibuprofeno e a diferença foi clara nas primeiras duas doses. O problema é que ibuprofeno não é inofensivo. Ele irrita a mucosa gástrica e pode causar gastrite se tomado em jejum. Sempre tome com comida. Quem tem histórico de úlcera, problemas renais ou pressão alta descontrolada deve evitar ibuprofeno e ficar com paracetamol mesmo, aceitando que o alívio pode ser menor.
Quando um não funciona e o que fazer
Aqui vai algo que muitos médicos não enfatizam: em casos de dor de garganta intensa, a combinação alternada de paracetamol e ibuprofeno pode ser mais eficaz que qualquer um isoladamente. Não estou falando de tomar os dois juntos no mesmo horário. O protocolo funciona assim — toma ibuprofeno, e quando o efeito começa a passar (cerca de 4 horas depois), toma paracetamol. Dessa forma, você tem cobertura analgésica quase contínua com doses menores de cada medicamento, o que reduz o risco de sobredosagem em qualquer um deles. Eu tentei esse método na minha última faringite, que foi particularmente ruim. A dor era tão intensa que nem água conseguia descer. O ibuprofeno sozinho não segurava por mais de 5 horas. Comecei a alternar com paracetamol nos intervalos e a dor ficou controlada em cerca de 24 horas, enquanto com medicação isolada levava 3 a 4 dias para amenizar. O ponto crítico é manter um registro escrito dos horários. Sem isso, é muito fácil esquecer e acabar duplicando a dose de um dos remédios, o que é perigoso, especialmente com paracetamol, cuja toxicidade hepática é dose-dependente. Outro detalhe prático que pouca gente considera: a apresentação do medicamento importa. Comprimidos revestidos de ibuprofeno têm liberação mais lenta e são menos agressivos ao estômago, mas também demoram um pouco mais para fazer efeito. Cápsulas ou xaropes entram na corrente sanguínea mais rápido — útil se você precisa de alívio imediato para conseguir dormir à noite. De dia, os comprimidos tradicionais funcionam bem porque a duração prolongada é mais vantajosa que a velocidade de ação.
Limitações importantes que ninguém conta
Nenhum dos dois resolve a causa da dor de garganta. Se for viral, o corpo resolve em 5 a 7 dias e o remédio apenas gerencia o sintoma. Se for bacteriana — o que você identifica por placas brancas nas amígdalas, febre acima de 38°C e ausência de tosse —, neither paracetamol nem ibuprofeno vão curar. Você precisa de antibiótico prescritor por um médico. Tomar anti-inflamatório por conta própria nesse cenário só mascara os sintomas enquanto a infecção progride, o que já vi acontecer várias vezes no consultório de urgência. Há ainda o caso específico de dor de garganta associada a refluxo laringofaríngeo. Nesse tipo de dor, o problema não é inflamação infecciosa e sim ácido estomacal queimando a faringe. Nem paracetamol nem ibuprofeno resolvem isso de forma relevante. O tratamento é inibidor de bomba de prótons e mudança de hábitos alimentares. Tomar AINEs nesse caso pode até piorar, porque o ibuprofeno por si só pode provocar ou agravar o refluxo. O paracetamol em doses altas por períodos prolongados também merece atenção. Mais de 2g por dia durante mais de uma semana aumenta o risco de lesão hepática silenciosa, especialmente se a pessoa consome álcool regularmente. O ibuprofeno em uso contínuo acima de 3 dias sem supervisão médica pode elevar a pressão arterial e prejudicar a função renal. Ninguém precisa desse risco se a dor passar em 2 ou 3 dias, que é o cenário mais comum para faringites virais.
Se a dor de garganta persistir por mais de 5 dias, se houver dificuldade para respirar ou engolir líquidos, se a febre não ceder com medicação ou se aparecer erupção cutânea, pare a automedicação e procure atendimento médico. Nenhum analgésico é solução para isso.